1 – Havia uma casa velha, dentro dela uma moça também velha chamava a atenção. Não falei, ficou debruçado na janela vendo o tempo passar. E nós vendemos. Passávamos ao largo, mal olhávamos para ela. Era uma moça branca, gorda, feia e triste.
2 – Dia desses passaram por lá, a casa continua de pé, abandonada como sempre, mas de pé.E o abandono aumenta pela ausência da moça que ficou na janela.
3 – Em frente à casa velha existia uma igreja de crentes. A fachada da igreja era muito bonita, chamava a atenção. Nunca entrei lá. E se quisesse entrar hoje não poderia, a igreja fechada, suas portas fecharam. E no cume da igreja nasceu uma árvore, que cresce com o passar do tempo, vende a hora cair em cima do povo que passa pela rua.
4 – A rua da moça triste era animada, tinha lojas, tinha ambulantes, tinha cartórios, tinha cafezinhos e tinha bares. Tinha um hotel bonito, majestoso. Um rapaz do mato um dia foi conhecer a cidade grande e o hospedou nesse hotel. Ele ficou deslumbrado com a vista que se via lá de cima e com o telefone preto à sua disposição no apartamento. Nunca tinha visto um. E passou os dias de hospedagem ligando a ermo.
5 – Quando as manhãs se anunciavam, os cafézinhos em torno da praça abriam as portas e ofereciam café da manhã. E neles se comia cuscuz com ovo, com carne guisada, ovo frito com pão francês, o café pingado, servido em copo de vidro, ajudava na descida. E as conversas animadas, de tão animadas, faziam o tempo correr sem ser notado.
6 – Os cinemas também faziam parte da paisagem. Tinha logo três, um mais chique, fazia sessões de arte aos sábados. Os críticos de cinema viam as fitas e publicavam resenhas que somente eles liam. E os velhos enxeridos mal escondiam a ansiedade pela chegada da hora em que o cinema mais popular começava a exibir os pornôs que eles assistiam com a avidez aqueles que já foram bons nisso.
7 – Quando a noite apontava a cara no horizonte, mulheres exageradamente maquiadas, usando roupas curtas e chamativas, postavam-se nas esquinas oferecendo amor. Eram tantas que dava trabalho escolher a amada de cada noite.
8 – E um mundo até então adornado saía das tocas, enchia as ruas, oferecendo afagos e beijos aos donos das noites, aos boêmios das madrugadas, aos cuidados de carinho e sexo.
9 – Esse mundo passou no tempo, escondeu-se na saudade, ficou nas ruas desertas, nas casas sem janelas abertas, nas praças invadidas pelas formigas e pelo abandono.
10 – Também ficou um monte de saudades guardadas no peito de quem ainda não morreu e recebeu a sobrevida como penitência para carpir seus pecados.
11 – E agora lá se vão meus abraços sabadais para Chico Pinto, Jackson Bandeira, Cícero Lima, Zé Euflavio, Edson Werber, Sérgio de Castro Pinto, Josinaldo Malaquias, Antônio David Diniz, Carlos César Muniz, Valter Paiva, Carlos Candeia, Glaucio Nóbrega, Tavinho Santos, Aldo Lopes, Miguezim Lucena, Edmilson Lucena, Sérgio Botelho, Filipe Fagundes, Hilton Gouveia, Jorge do Detran, Paulo Emmanuel Gonzaga, Ramalho Leite, Hilomar Araújo, Solon Benevides, Gilberto Carneiro, Chico Franca, Johnsim Abrantesd, Marco Antônio Gouveia de Morais e Aluizio Bezerra.
12 – Essa veio de Lilia Fernandes, contrarânea e amiga de juventude:
Conversavam na calçada de Miguel Rodrigues e o tema era a doença de Cleonice, irmã de Zé Góes, que estava com câncer. Um jovemzinho, que ouviu a conversa, ouviu alguém perguntar qual era a doença que maltratava a irmã do grande Zé e ele, prontamente, esclareceu:
– Ela está com a mesma doença de voinho, câncer de próstata.










