O bredo da Semana Santa era o prato mais apreciado. Fazia companhia à traíra que mamãe cozinhava ao leite de vaca. Prato cheio, maravilhosamente cheio, com guarnições de feijão verde, maxixe e farinha de mandioca. Não havia como jejuar com tanta comida à disposição, era um jejum de fartura, o bucho chegando perto da boca e papai “matando piolho” com a ponta dos dedos para medir o tamanho da barriga.
As rezas ficaram na carga dos mais velhos,a menina gostava mesmo era de comer. Traíra, pescada, corró, piaba, cascudo e tucunaré eram os peixes que povoavam os açúcares da cidade. A tilápia ainda era desconhecida, morava na África, só apareceu depois. Vigó pescava de anzol, ele e Zé Carnaíba, os dois passandom com as enfieiras ricas nas mãos oferecendo o peixe, que era comprado no olho, nada de peso, o cliente olhava a traíra lombo preto, mídia o tamanho, sentido o peso e botava preço. Dali para a panela era um pulo. E depois se comia até sobrar somente as espinhas.
Foi numa daquelas comidas que Maria de João se engasgou com uma espinha. Espinha grande, daquelas que nem subia nem descia, enganchou no meio da goela e a mulher, sem ar, começou a passar mal. Deram-lhe tapas nas costas, meizinhas de vários tipos, chamaram o médico, o farmacêutico, o enfermeiro, o atendente e nada. Maria ia morrer. A rua se encheu de gente, Tião do Ó foi acionado para fabricar o caixão, houve quem mandasse recado a Marçal Bocão para preparar a cova, mas aí apareceu o raizeiro Luiz Ribeiro e, sem pedir permissão ao dono da casa, se mudou da paciente, analisou, pediu um balde de farinha, mandou um doente abrir a boca, jogou a farinha de goela adentro e deu uma tapa nas suas costas. Foi a tapa batendo e a espinha descendo com farinha e tudo.
E Luiz, com ar de vitória, ainda se dispôs:
- Se enganchar na saída me chame que eu dou um jeito.











