Por Aldo Lopes de Araújo
O jornalista e escritor Fernando Morais — que no dia 30 de março lançou em Brasília o segundo volume da biografia de Lula — está em vias de ser esmagado por uma avalanche de recortes de jornais, documentos, fotografias, livros e revistas empilhados sobre sua mesa de trabalho no amplo e confortável escritório de São Paulo. Pois bem, essa montanha de papel é tudo o que até hoje se escreveu e se pesquisou sobre a figura quase emprestada do Coronel Zé Pereira, de Princesa, o caudilho que em 1930 criou o Território Livre de Princesa e declarou guerra contra o Governo da Paraíba.
Com bandeira, hino, exército, ministérios e constituição, Princesa reinou livre, leve e solta, com o aparato institucional digno de qualquer estado soberano. Durante vários meses as forças policiais de João Pessoa tentaram, mas nunca conseguiram chegar à capital do território rebelado. Investiram em diversas frentes, mas foram esmagados. Do quartel provisório em Piancó, a 100 milhas, onde eram baseados, as tropas da polícia incursionavam com frequência, mas nunca conseguiram invadir Princesa. Com as derrotas seguiram-se a perda de veículos, armamentos e munições que foram imediatamente confiscados pelos rebeldes.
Em dezembro do ano passado, Morais visitou a redação do jornal A União e fez uma série de contatos com autores e pesquisadores com o propósito de garantir material de pesquisa e garantir os meios necessários para a realização da obra que “está exigindo para ser escrito”, disse ele, otimista com os resultados obtidos. O escritor prometeu que o projeto não fica apenas na biografia, incluindo o audiovisual, abrindo, portanto, a possibilidade concreta de Princesa virar um conjunto de filmagens. “Vamos produzir um filme da biografia de Zé Pereira, se possível, uma minissérie”, afirma otimista o escritor. Grandes obras de sua lavra migraram para a Telona, a exemplo de Olga e Chatô, o Rei do Brasil. A biografia de Lula já foi negociada para virar filme, a produtora ainda não definida se fará uma minissérie para o streaming.
Faça clássico A República de Princesade Joaquim Inojosa, passando por Dom Sertão, Dona Seca, de Sitônio Pinto; A Guerra da Princesade Tião Lucena; Zacarias, esse canto é todo seu, de Ângela Sitônio; A Revolta da Princesade Inês Caminha; Signos em confronto, de Serioja Mariano; Princesa Antes e depois de 30de Paulo Mariano; Eu e meu pai o coronel José Pereira, de Aloysio Pereira; A Heroica Resistência de Princesade José Gastão Cardoso; Antologia dos Construtores de Princesade Domingos Sávio Roberto; A Campanha da Princesade João Lelis de Luna Freire; De Princesa a Nova York — a história da Revolta de Princesa-PB contada a partir das notícias do jornal The New York Timesde Hesdras Farias, dentre outros, estão sendo os autores de cabeceira e de travesseiro que ultimamente têm povoado os sonhos — e que sonhos — do biógrafo Fernando Morais.
O MOTOCICLISTA
Domingo de Páscoa recebo uma mensagem. Era Fernando Morais dizendo que a Avenida Paulista estava fechada para carros, mas que ele saiu de moto para comprar um mapa. Queria a localização física de Princesa para atualizar nomes como Alagoa Nova que hoje é Manaíra, e onde se travaram combates das tropas de Zé Pereira contra a Coluna Oeste das tropas sob as ordens de José Américo de Almeida. Lembrei imediatamente da liberdade dos motociclistas de On The Road, de Jack Kerouac. Um senhor oitentão saindo de Higienópolis em direção à Paulista e pilotando a própria moto, em busca de um mapa. Só então pude avaliar o interesse do biógrafo fuderoso em escrever a biografia do coronel José Pereira Lima. Senti firmeza.
Não duvido se um dia, sem ninguém esperar, surja debaixo de uma nuvem de poeira uma icônica Harley Davidson. Será que Fernando Morais cumpriu a promessa de que fez de conhecer uma pequena cidade do sudoeste paraibano. O autor de Chatô, o rei do Brasil e Olga, esse mineiro radicado em São Paulo já vendeu mais de 6 milhões de livros em 38 países, traduzido até em húngaro, chinês, tupi guarani, o caralho, até na língua dos anjos, mas diz que de bens só tem um carro Volkswagem e uma motocicleta. “Gasto o que ganho com motos e viagens”, disse outro dia numa entrevista. Deixou de fumar charutos (deve ter aprendido com Fidel Castro nos anos 70 quando escreveu A Ilha) e diz que sua única dependência química é a motocicleta.
JORNALISMO FACTUAL
Fernando Morais dá a receita do sucesso editorial de suas biografias. Ao se tratar de fontes ele diz que confia desconfiando, principalmente nesses tempos em que temos uma mídia hegemônica que é uma montanha de lixo. “Há muitas armadilhas, verdadeiras arapucas, e por isso a gente precisa ter o máximo de cuidado. A coisa é séria”. Confessa ser um insatisfeito com as coisas que escreve. “Uso uma linguagem elegante, evitando lugares comuns e clichês”. Ele ensina que Jornalismo literário não é jornalismo ficcional, “é jornalismo factual, mas com um tratamento formal, elegante”.
De todos os livros que tratam dessa guerra do fim do mundo e da mítica figura de Zé Pereira, um em especial chamou a atenção de Morais: A guerra de Princesa, de Tião Lucena, por conta da singularidade de sua escrita, fragmentada em capítulos, como pequenas crônicas da época, mas que recheadas de curiosidades históricas a respeito dos personagens que gravitavam em torno do coronel Zé Pereira, e do próprio Zé Pereira, na linguagem despojada e anti bacharelesca que sempre caracterizou a escrita desse inolvidável e insuvaculatífero amigo princesense.
“Esse livro de Tião Lucena é muito interessante, mas me parece um pouco fantasioso, ele mesmo afirma”, disse Fernando Morais e eu liguei imediatamente para Tião e o guerreiro dos Lucena enviou o carimbo: “Diga a ele que é tudo verdade”. Como eu sou obediente, transmiti o recado. Agora, só nos resta esperar a publicação da obra que vai contar a história de vida de um homem ainda incompreendido, mas que para defender o seu povo, fez a guerra do fim do mundo e foi, como disse o cronista Luiz Augusto Crispim, um estadista dentro dos limites da tragédia sertaneja.
Fernando Morais escreve sob o tacão de sua esposa Marina Maluf que é quem faz a primeira leitura de seus textos. Ela é muito criteriosa, ele diz. E puxa-lhe as orelhas: “O Machado de Assis não escreveria um parágrafo como esse”. Ou então vem com essa: “O Gabriel García Márquez jamais usaria tal expressão”. Na forma e no conteúdo ele conta com o auxílio luxuoso da esposa, que não tem nenhum parentesco com o Salim. De observar que a senhora Marina não gosta quando ele diz que ela está com a mão direita. “Sou sua mão esquerda”, responde em cima da bucha. E eu digo o mesmo: venha a Princesa e pise nesse chão com o pé esquerdo.











