Lendo de um fôlego só o livro de Glauce Burity sobre seu marido, o ex-governador Tarcísio Burity.
“Tarcísio Burity – O intelectual na política paraibana” é um livro de leitura obrigatória para quem deseja conhecer a história recente da Paraíba.
São 419 páginas de um texto gostoso, direto, sintético, que não enfada o leitor, ao contrário, deixa ele sentir na boca aquele gosto de quero mais.
Estou lendo o capítulo sobre a tentativa de assassinato, aquela em que Burity quase foi morto por Ronaldo no Gulliver.
Dona Glauce dá detalhes até agora desconhecidos da grande maioria do povo paraibano.
Eu até me animei a escrever algumas linhas sobre o ex-governador.
Fui assessor de Dona Glauce, privado da amizade da família, convivi com Burity antes e depois do poder, dá pra arriscar algumas opiniões.
Aproximei-me do ex-governador Tarcísio Burity durante a campanha de Marcus Odilon para a Prefeitura de João Pessoa, em 1985.
Até então, o caminho de longe, participou de suas entrevistas coletivas como repórter, mas nunca fomos íntimos.
Burity estava na oposição. Ajudara a eleger Wilson Braga governador da Paraíba, ele próprio se elegeu deputado com a maior votação dada a um deputado federal até então, mas nem bem tomou posse como governador, Braga rompeu com ele.
Temia a sua liderança, a sua inteligência, a sua oratória fulminante.
E, ironia das ironias, os dois eram contra parentes. Wilson era casado com Lúcia, que era prima legítima de Glauce, a mulher de Burity.
Esse contra parênteses não evitou que as pessoas indicadas por Burity para cargas no governo que ajudassem a eleger, fossem perseguidas e exoneradas
A última exoneração foi de Giselda Navarro, cunhada de Burity.
Giselda, que no Governo de Burity foi secretária da Educação, foi nomeada por Braga para a Presidência da Fundação Espaço Cultural.
Pois Braga não se limitará a exonerá-la. Mandou o então secretário de comunicação, Luiz Augusto Crispim, despejá-la do gabinete que ocupava no Espaço Cultural de João Pessoa.
Mas Burity tinha um mandato de deputado federal, uma tribuna em Brasília e muita energia para queimadura.
E foi à luta.
Apoiou Marcus Odilon para prefeito, contra o candidato de Braga e do acordo que ele fez com o PMDB à época, Carneiro Arnaud.
De um lado de todo poderoso governador, o senador Marcondes Gadelha que Burity, quando no Governo, conquistou para o PDS e ajudou um eleito senador da República, além do PMDB capitaneado pelo senador Humberto Lucena. E do outro, Burity sozinho com Marcus Odilon e o vereador Antônio Augusto Arroxelas.
Um grupo de jornalistas foi convidado por Sindulfo Santiago, coordenador da campanha de Odilon, para trabalhar no comitê eleitoral. Eu era um deles. Participamos ativamente da campanha, fizemos textos, redigimos manifestos, ao final credenciamos que Marcus ganhouia. Mas não ganhou,
Houve quem garantiu que a eleição foi roubada.
No dia da eleição, as urnas, cheias de votos, foram transportadas em ônibus do empresário Abelardo Azevedo, a quem Marcus Odilon prometeu expulsar de João Pessoa tão logo tomasse posse. Houve até o caso de um presidente de sessão que levou uma urna para casa, só a evoluir no dia seguinte.
Carneiro se elegeu, mas se elegeu apertado. Odilon cresceu, Burity revelou-se o verdadeiro líder da oposição e dali a dois anos importou a Wilson Braga a mais vergonhosa e vexatória derrota eleitoral já registrada nos anais políticos do Estado da Paraíba.
Chamavam-no de neófito porque, antes de ser governador escolhido em pleito indireto, jamais disputara qualquer carga política.
Era secretário de Educação do Governo Ivan Bichara e sua escolha para governador resultaria do impasse surgido com a candidatura do deputado Antônio Mariz, afilhado político do ex-governador João Agripino, mas visto com desconfiança pelas forças militares.
Mariz tinha fama de comunista, embora fosse filiado à Arena, partido do governo.
Quando houve o golpe militar, foi prefeito de Sousa e só não foi preso porque João Agripino o protegeu.
Daí a resistência dos militares ao nome de Mariz e a escolha de Burity, que aos 38 anos assumiu o cargo de governador do Estado da Paraíba.
Mas o neófito se revelou bem mais capaz do que as raposas velhas da política.
Em quatro anos revolucionou o Estado.
Enfrentou a seca que devastou o Nordeste, e quando o Governo Federal anunciou o fim do pagamento aos emergenciados, bancou por conta própria a renovação dos agricultores alistados nas frentes de trabalho e, num rasgo de ousadia, determinou que as mulheres alistadas deveriam receber os contratos sem precisar sair de casa.
Deu generosos aumentos salariais aos funcionários públicos, levaram estradas asfaltadas aos mais distantes rincões, fizeram açudes, barragens e adutoras. Construiu uma barragem de Gramame, que garantiria o abastecimento de água para João Pessoa nos próximos 20 anos. Construiu o Espaço Cultural José Lins do Rego com uma superestrutura de teatro, cinema, biblioteca, planetário, museu, galeria de arte e escola de música, abriu a Via Litorânea de Intermares, fez o Hemocentro, o novo Terminal Rodoviário de João Pessoa, construiu o Mercado de Artesanato da Paraíba e realizou o maior programa habitacional da história do Estado, com 50 mil casas construídas.
Isso o tornou popular e o transformou na liderança política reconhecida pelo histórico PMDB de Humberto Lucena, Mariz e Ronaldo Cunha Lima, que renunciou à cabeça de chapa em 1986 e o apoiou para o governo do Estado, no encontro pleito em que derrotou Wilson Braga (candidato a senador) e o senador Marcondes Gadelha, seu oponente na disputa pelo Governo.
(CONTÍNUA)










