Porque hoje é sábado | Blog do Tião Lucena

1 – Depois da tristeza da Sexta-Feira da Paixão, a cidade se enfeitava para o Sábado de Aleluia. A rua do Cancão se transformou no tribunal que julgaria o Judas pelas maldades que fez a Jesus Cristo. O povo era o corpo de jurados, o juiz e carrasco era Pedro Fogueteiro e a meninada a plateia.

2 – Nem bem o dia amanhecia, o imenso boneco era suspenso num pau de vários metros. Ficava ali exposto até que Pedro acendesse o pavio e as bombas o despedaçassem. Era pedaço de boneco pra todo lado e, com os pedaços, balas e confeitos que a meninada catava como se estivesse colhendo manjá do céu.

3 – Mas a festa da aleluia não findava aí. No meio da tarde as cabrochas dos sítios que cercavam a cidade desciam a serra, fizeram uma parada estratégica às margens do açude para lavarem os pés e, cheirando a mato verde, se jogaram no forró para alegria dos rapazes ávidos por carinhos e amores depois de uma semana de tanto sofrimento.

4 – De lá da igreja, o padre e o sacristão mandavam recados pela difusora, diziam aos fiéis para se conterem, não pecarem, não se entregarem à tentação da carne, porque senão iriam todos para o inferno, com direito a ferroadas de fogo nos trazeiros e à imensidão das caldeiras infernais.

5 – A turma ouvia, mas segue adiante. Era difícil resistir aos acordes da sanfona de Mané Tocador, ao cantar de João Caiti, ao pandeiro de João de Né e ao saxofone choroso de Zé de Minininha. O forró varava a noite, alcançava a madrugada e só terminava quando as Filhas de Maria enchiam a rua com suas vestes brancas, adornadas pelas fitas azuis e encarnadas, e seus louvores à Virgem do Bom Conselho.

6 – As meninas da Rua da Lapa, que fechavam os segredos para evitar pecados maiores, voltavam a sorrir e a amar. Era o fim do sofrimento dos notívagos que não sabiam viver longe dos carinhos noturnos das que amavam por dinheiro e as vezes por amor.

7 – E como eram lindas as meninas da Rua da Lapa! Pixuita, que depois de morta ganhou nome de praça, era a mais bela. Mas as outras eram belas também. Toinha Baú, Pipoca, Lurdes Branca, Rita Quarto de Bode, Lindalva, Espedita de Aderbal, Espedita de Toinho Medeiros, Bola, Socorro Rouca, Rosa Caracaxá, Palmira, Zulmira e a direção do espetáculo a inesquecível e insubstituível Estrela.

8 – Nas Pedras da Lagoa da Perdição, jovens românticos se ajoelhavam diante das suas musas, pedindo pra elas um pouquinho de alento às suas carências sexuais. Foi tudo o que principiou o aumento populacional, que fez sentido pelas parteiras e médicos do Hospital São Vicente de Paula nove meses depois.

9 – Pecava-se, é certo, mas eram pecados bem intencionados, praticados por jovens inocentes que não sabiam medir o tamanho de suas peraltices. Coisas que Jesus perdoava com certeza, tanto é verdade que muitos dos pecadores eram coroinhas da igreja, ajudantes dos padres no “seculá seculorum”.

10 – Os tempos mudaram, a cidade mudou, o açude, se não seco, foi transformado em depósito de lixo, fossas e esgotos, as cabrochas envelheceram, o cabaré fechado, os jovens ficaram taludos, os austeros padres que vestiam batinas foram substituídas por padres modernos que andam a paisana, botaram asfalto nas ruas, demoliram as casas antigas, construíram lojas, supermercados, coisas do progresso. Até Pedro Fogueteiro se foi com seu boneco de Judas. E as raparigas fecharam as portas da Rua da Lapa, sumiram no oco do mundo, foram embora.

11 – E agora lá se vão meus abraços sabadais para Val de Lucena, Zeca Ricardo Porto, Fernando Pires Marinho, Aldo Lopes de Araújo, Clodoaldo Araújo, Giovane do Fisco, Newton Arnaud, Geordie Tampa de Furico Filho, Fernando Caldeira, Herbert Fitipaldi, Mário Gomes Filho, Diego Lima, Maurilio Batista, Quinto de Santa Rita, Fred Menezes, Josinaldo Malaquias, Edson Vidigal Filho, Sebastião Gerbase, Maguila de Bananeiras, Zebedeu de Solânea, Pedro Cirne, Ricardo Ramalho, Cícero Lima, Gilberto Carneiro, Ricardo Coutinho, Ulisses Barbosa e Tadeu Mendes Florêncio.

12 – A Rádio Tabajara da Paraíba inveja Ivan Bezerra e Eudes Toscano para cobrirem um jogo entre o Botafogo e o Esporte do Recife, no Estádio dos Aflitos.

Três horas da tarde, o sol claro e quente, a partida quase iniciando, os repórteres a postos, Eudes inicia a transmissão pedindo que Ivan dê suas primeiras opiniões sobre o jogo. Ivan, que cochilava pelo olho de vidro, pega o microfone e começa:

-Como sempre, a iluminação dos Aflitos é péssima, não dando as condições mínimas para a realização da partida.

Eudes o interrompido no ar:

-Ivan, seus óculos escuros!

Ivan tira os óculos e continua:

-Meus amigos, agora melhorou consideravelmente.

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