Uma agenda estratégica para fortalecer o agronegócio, a agroindústria e a inserção internacional da economia paraibana
Por Rômulo Araújo Montenegro
A Paraíba vive um momento oportuno para refletir sobre seu papel no comércio internacional. Os dados mais recentes do comércio exterior demonstram que a produção paraibana alcança mercados em diferentes continentes, evidenciando a qualidade de nossos produtos, a capacidade empreendedora de nossas empresas e o potencial competitivo do agronegócio e da agroindústria estadual.
As estatísticas do comércio exterior revelam uma pauta exportadora diversificada e uma presença crescente em mercados estratégicos como Estados Unidos, China, Países Baixos, Espanha, Portugal, Argélia, Geórgia, Indonésia, Filipinas e Israel. Esses resultados demonstram que existe demanda internacional pelos produtos da Paraíba e que nosso Estado possui condições de ampliar significativamente sua participação no comércio global.
Entretanto, uma análise mais aprofundada desses números revela um desafio que deve orientar as políticas públicas e os investimentos privados na próxima década.
O futuro das exportações paraibanas não dependerá apenas do aumento da produção. Dependerá, sobretudo, da capacidade de agregar valor àquilo que produzimos.
As economias que alcançaram níveis elevados de desenvolvimento não foram aquelas que apenas exportaram materiais-primas. Tornaram-se prósperas porque transformaram recursos naturais em produtos industrializados, tecnologia, inovação e conhecimento.
Esse deve ser o novo ciclo de desenvolvimento da Paraíba.
A cadeia da cana-de-açúcar ilustra claramente essa oportunidade. O lucro continuará sendo um importante produto da pauta exportadora estadual. Contudo, o maior potencial econômico encontra-se na ampliação da agroindustrialização, com a produção de açúcares especiais, orgânicos, demerara e mascavo, etanol de alta pureza, álcool para aplicações farmacêuticas, bioenergia, bioinsumos e novos bioprodutos derivados da biomassa.
Na fruticultura, o desafio é semelhante. A Paraíba reúne excelentes condições de solo, clima e capacidade produtiva para ampliar sua presença internacional. Entretanto, o verdadeiro salto econômico ocorrerá quando as frutas produzidas no Estado forem transformadas em sucos integrais, polpas congeladas, frutas desidratadas, concentradas, alimentos funcionais, ingredientes naturais e produtos premium destinados a mercados mais exigentes.
O mesmo aplica-se à cadeia produtiva do coco. Água de coco, leite de coco, óleo virgem, farinha, fibras naturais, substratos agrícolas, carvão ativado e biomateriais representam segmentos de elevado crescimento mundial e com valor agregado muito superior ao da simples comercialização do fruto.
Na verdade, a Paraíba já abriga rebanhos bovinos, caprinos e ovinos reconhecidos nacionalmente por sua qualidade genética. Trata-se de um patrimônio que precisa ser convertido em oportunidade econômica por meio de exportação de esperma, embriões, animais de reprodução e tecnologias de melhoramento genético, agregando ciência, inovação e renda ao setor produtivo.
Da mesma forma, as derivadas do leite bovino e caprino representam uma expansão do mercado em franca. Queijos especiais, leite em pó, proteínas lácteas, alimentos funcionais e ingredientes destinados à indústria alimentícia possuem elevado valor agregado e alcançam consumidores cada vez mais exigentes nos mercados nacional e internacional.
Nenhuma dessas oportunidades, entretanto, será aproveitada sem investimentos contínuos em pesquisa agropecuária, assistência técnica, inovação, defesa agropecuária, certificações internacionais, infraestrutura logística e inteligência comercial.
O recente aumento das tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre parte das exportações brasileiras reforça essa necessidade. Em um ambiente internacional marcado por disputas comerciais, barreiras tarifárias e critérios sanitários crescentes, dependem de poucos mercados que representem um risco estratégico.
Ao mesmo tempo, esse cenário abre novas oportunidades. Quanto maior a agregação de valor, maior será a capacidade da Paraíba de acessar mercados diferenciados, reduzir sua vulnerabilidade a medidas protecionistas e ampliar sua competitividade internacional.
Mais do que disputar mercados pelo menor preço, precisamos competir pela qualidade, pela inovação, pela sustentabilidade, pela rastreabilidade e pela confiabilidade dos nossos produtos.
Agenda Estratégica das Exportações da Paraíba – Horizonte 2035
O fortalecimento das exportações paraibanas exige uma política de Estado, permanente, integrada e orientada por metas de longo prazo.
Nesse sentido, proponho uma Agenda Estratégica das Exportações da Paraíba para o horizonte de 2035, estruturada em onze eixos fundamentais:
1. Instituir o Plano Estadual de Promoção das Exportações, com metas, indicadores de desempenho e governança compartilhados entre governo e iniciativa privada.
2. Implantar um Programa Estadual de Agroindustrialização voltado para agregação de valor das cadeias produtivas estratégicas.
3. Fortalecer a pesquisa agropecuária, a assistência técnica, a extensão rural e a defesa agropecuária como instrumentos permanentes de competitividade internacional.
4. Expandir programas de certificação sanitária, ambiental, de origem e qualidade para ampliar o acesso aos mercados mais exigentes.
5. Incentivar cooperativas, associações e pequenas agroindústrias exportadoras por meio de crédito, inovação, gestão e promoção comercial.
6. Consolidar a Paraíba como referência nacional na exportação de genética bovina, caprina e ovina.
7. Estimular a industrialização das cadeias de cana-de-açúcar, fruticultura, coco, leite, pescado, mel, cacau, mandioca e demais produtos do agronegócio.
8. Estruturar uma política permanente de inteligência comercial para identificar mercados, antecipar tendências e apoiar empresas exportadoras.
9. Integrar a Paraíba à Ferrovia Transnordestina, conectando seus polos produtivos aos grandes corredores logísticos do Nordeste. Essa integração reduzirá os custos de transporte, ampliará a competitividade das exportações, atrairá investimentos industriais e fortalecerá o Porto de Cabedelo como uma plataforma estratégica de comércio exterior.
10. Modernizar e integrar a infraestrutura logística estadual, ampliando a eficiência do Porto de Cabedelo e promovendo a articulação entre rodovias, aeroportos, centros de distribuição e futuras conexões ferroviárias.
11. Integrar universidades, centros de pesquisa, setor produtivo, cooperativas e governos em uma política permanente de inovação, desenvolvimento tecnológico e internacionalização da economia.
A Paraíba reúne todas as condições para ampliar sua presença no comércio internacional.
Possui produtores eficientes, agroindústrias competitivas, instituições de pesquisa reconhecidas, localização geográfica privilegiada e uma diversidade produtiva capaz de atender aos mercados mais exigentes do mundo.
O desafio da próxima década não será apenas produzido mais.
Será transformar a produção em inovação, matéria-prima em produtos de alto valor agregado, conhecimento em competitividade e oportunidades em desenvolvimento sustentável.
Exportar materiais-primas continuará sendo importante.
Mas exportar alimentos processados, produtos agroindustriais, genética animal, bioprodutos, alimentos funcionais e produtos de alta qualidade será decisivo para elevar a renda dos produtores, gerar investimentos envolvidos, fortalecer as cooperativas, participar da indústria e promover um novo ciclo de desenvolvimento para a Paraíba.
A internacionalização da economia paraibana deve ser compreendida como uma política permanente de desenvolvimento econômico, baseada na inovação, na competitividade e na agregação de valor.
A Paraíba já declarou que sabe produzir.
Agora é o momento de consolidar uma nova etapa de sua história: transformar, inovar, agregar valor e conquistar novos mercados.
Agregar valor não é apenas uma estratégia econômica. É uma decisão que permitirá à Paraíba transformar sua vocação produtiva em prosperidade, fortalecer sua agroindústria, ampliar sua presença no comércio internacional e construir um futuro de desenvolvimento sustentável para as próximas gerações.
Rômulo Araújo Montenegro
Professor Universitário • Consultor Empresarial • Produtor Rural • Ex-Secretário de Estado da Agricultura e Pecuária da Paraíba • Ex-Presidente do CONSEAGRI • Membro da Academia Latino-Americana do Agronegócio (ALAGRO).











